O incêndio em São Paulo e a importância da compartimentação nas edificações

Olá colegas! Na madrugada da última terça, Dia do Trabalhador, uma tragédia ocorreu na cidade de São Paulo, um incêndio no edifício histórico Wilton Paes de Almeida de posse da União Federal e que era ocupado por dezenas de famílias “sem-teto” entrou em colapso devido à diversas falhas estruturais causadas pelos efeitos das chamas. As imagens e o ocorrido são chocantes, no momento da redação desse artigo muito ainda é especulado e a busca por sobreviventes está em andamento.

Incêndio em prédio histórico (Fonte: Gazeta do Povo)

Ainda não há um número preciso do total de vítimas do ocorrido, mas circulam nas mídias, gravações que mostram um dos habitantes do prédio que estava em processo de resgate e acabou sendo engolido pelo prédio em ruína. A edificação estava abandonada pelo poder público – seu proprietário – e houveram inclusive tentativas de leiloar o imóvel numa investida em dar novo uso ao mesmo, contudo sem sucesso.

Bombeiros ao lado dos escombros do edifício (REUTERS/Leonardo Benassatto)

Segundo informações da Prefeitura Municipal de São Paulo, no dia 10 de março deste ano, foi realizado um cadastro de 150 famílias, num total de 400 pessoas que afirmavam morar no local, sendo 100 destes indivíduos estrangeiros.

O Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo começou a divulgar informações sobre o início do combate às chamas no local por volta das 1h40 de terça-feira, nesse momento 20 viaturas e 45 homens foram destacados para o atendimento no local. Às 3h os bombeiros relataram que parte da edificação havia desabado. As chamas chegaram a atingir dois prédios vizinhos e uma igreja – uma das primeiras paróquias evangélicas da cidade, fundada em 1908.

Segundo relato do capitão Marcos Palumbo à diversos meios de comunicação, além das condições do prédio e da forma de ocupação da edificação o que pode ter contribuído por o rápido alastramento do fogo:

“Ele tinha elevadores que foram substituídos (retirados). Então, esses dutos de ar que eles tinham no meio, pelo fosso do elevador, eles acabam formando uma chaminé. Você tinha muito material combustível: madeira, papel, papelão, algo que fez com que essa chama se propagasse com rapidez. E a própria estrutura do prédio, sem os elevadores, formando essa chaminé, fez com que causasse o incêndio de forma generalizada na edificação”.

Situação do imóvel antes do incêndio (Fonte: Folha de São Paulo)

À luz desse fato, cabe a nós falarmos um pouco sobre o isolamento dos riscos em uma edificação. O isolamento de riscos são consideradas medidas de proteção passivas das edificações, pois reagem passivamente à presença do fogo e se por acaso esse ocorrer, evitam ou atrapalham seu crescimento e propagação pelo imóvel. São medidas que devem ser tomadas na fase de projeto, quando a edificação está sendo concebida pois realizar o isolamento de riscos uma vez que a edificação encontra-se construída é inviável. Basicamente esse isolamento pode ser feito de duas formas, pelo afastamento de segurança entre diferentes edificações e pela compartimentação vertical e horizontal do imóvel em questão, vamos nos ater à segunda forma no post de hoje.


Exemplos de compartimentação nas edificações (Fonte bombeirooswaldo.blogspot.com)

Essa compartimentação horizontal e vertical nada mais é que a divisão física entre os diversos ambientes e aberturas de um edifício através de elementos que tenham resistência ao fogo de forma a conter ou dificultar a propagação das chamas ao longo da construção. É um dos sistemas mais eficientes e econômicos a serem empregados no sistema preventivo uma vez que, muitas vezes podem ser realizadas por elementos relativamente baratos como blocos de concreto, paredes de tijolos com reboco ou até divisórias de placas de gesso (drywall). A falta dessa compartimentação no duto dos elevadores, devido à retirada dos mesmos criou um grande volume não compartimentado no núcleo da edificação que permitiu o rápido e fácil alastramento do fogo ao longo de todo prédio na capital paulista, como relatou o capitão Marcos Palumbo. Além dos dutos dos elevadores, quais outros locais merecem cuidado para se manter a compartimentação?

As escadas são, invariavelmente, elementos que criam uma abertura vertical em todo o corpo do edifício, por isso, em edifícios mais altos há a necessidade de se isolar esses elementos através de paredes e portas corta-fogo, os elementos que recebem essa classificação “corta-fogo” são aqueles que por um certo período de tempo, mesmo expostos às chamas, garantirão estabilidade estrutural, não permitirão que gases, fumaça e chamas passem por eles e manterão um isolamento térmico do ambiente. Por isso é fundamental, que em edifícios que contem com escada com portas corta-fogo, que essas sejam SEMPRE mantidas fechadas e desimpedidas dos dois lados. Também é fundamental que o corpo da escada não seja utilizado para outros fins como a locação de lixeiras ou depósitos para se evitar que ali possam ser inseridos materiais combustíveis.

Modelo de porta corta-fogo com barra anti-pânico (Fonte: JFire)

Dutos do sistemas de ar-condicionado e bandejas de cabos elétricos são estruturas que percorrem grandes áreas das edificações em especial daquelas de uso comercial e industrial. Invariavelmente essa passagem criará diversos rasgos e aberturas em muitos locais da edificação. Projetar um empreendimento sem essas aberturas é impraticável. Como garantir-se a compartimentação e consequente isolamentos dos riscos nesse caso então? Para os dutos de ar-condicionado pode-se optar pelos registros corta-fogo interligados ao sistema de alarme e detecção de incêndios, que quando identificarem um foco de incêndio, fecharão automaticamente diversos pontos de passagem dos tais dutos preservando a compartimentação ao longo de toda o imóvel.

Registro corta-fogo (Fonte: Trox do Brasil)

Para os dutos ainda é possível revesti-los com placas de silicato de cálcio ou outra proteção equivalente ao longo de toda a extensão da rede de forma a garantir a mesma resistência ao fogo das paredes.


Dutos de ar-condicionado com manta antichamas (Fonte: Unifrax)

Já nos locais que as bandejas de cabos elétricos atravessam as paredes, igualmente devem ser realizados procedimentos que assegurem a vedação desses espaços de tal forma que as chamas não os transpassem em caso de sinistro. Esse cuidado deve ser redobrado especialmente em edificações industriais. Existem diversas soluções também para essas situações: selantes intumescentes, espuma corta-fogo, fechamento com blocos flexíveis intumescentes, placas de lã de rocha, argamassas corta-fogo. Além disso há tintas para aplicação nos cabos que impedem o alastramento do fogo e garantem a integridade dos cabos.

Aplicação de tinta antichamas para cabos elétricos (Fonte: CKC)

Os shafts são as aberturas entre lajes destinadas a passagem vertical de tubulações diversas e também de infraestrutura elétrica e de dados, tem por características estarem alinhados verticalmente em diversos pavimentos criando um grande volume vazado no corpo da edificação. Por contarem em seu interior com diferentes materiais que comportam-se de maneira distinta quando expostos ao calor, o interessante aqui é optar-se por materiais de vedação flexíveis que permitirão selar o local apesar das diferentes dilatações dos elementos ali contidos. No mercado existem produtos, os selantes intumescentes, por exemplo, são extremamente versáteis e de fácil aplicação. Também pode ser realizado o fechamento dos shafts com placas de silicato de cálcio, nesse caso deve-se ter cuidado especial nas junções das placas com os elementos estruturais onde deve ser aplicado selante intumescente para garantir a estanqueidade da estrutura. Independente da forma de vedação, deve-se ter cuidado na escolha, a mesma deve ser concebida de forma a prever futuras modificações/manutenções da infraestrutura dos shafts como a adição de novas tubulações por exemplo.

Selagem de shafts (Fonte: Risotherm)

Existem ainda outros cuidados no isolamento de riscos, como os locais de passagem de tubos isolados, a propagação de chamas por aberturas em fachadas, a proteção de fachadas “pele de vidro” e muito mais. Na hora de contratar profissionais para executar o seu projeto, preze por aqueles que levem em conta todos esse itens, lembre-se que o isolamento de riscos é uma das ferramentas mais eficientes e baratas dos sistemas de prevenção de incêndios, é fundamental investir-se em bons projetos para a sua garantia.

Até a próxima!

Fontes: https://www.terra.com.br/noticias/brasil/o-que-se-sabe-ate-agora-sobre-incendio-que-derrubou-predio-no-centro-de-sp,d87a720732ba452220c6f5bae87e93344wai5bte.html

https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/o-que-se-sabe-e-o-que-falta-esclarecer-sobre-o-incendio-e-o-desabamento-em-sao-paulo.ghtml

https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/vistoria-dizia-que-nao-havia-risco-estrutural-em-predio-que-desabou-em-sp.ghtml

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